"É Bola de Pé em Pé", "Um a Um", "O Rei Pelé"… essas são apenas algumas das músicas cantadas pelo paraibano José Gomes Filho, o grande Jackson do Pandeiro, um dos mais importantes nomes da música popular brasileira. Neste sábado, o Rei do Ritmo completaria 100 anos se estivesse vivo. Dentre cocos, rojões, sambas, forrós e outros estilos musicais, Jackson do Pandeiro reuniu em versos e sons duas paixões nacionais: futebol e música.

Apaixonado pelo Flamengo e pelo Treze, da Paraíba, o cantor e compositor paraibano reservou parte de sua obra para colocar o futebol para jogo. O esporte mais popular do mundo, além de tema de muitas de suas músicas, compôs também as linhas de sua vida.

Jackson do Pandeiro teve relação com a bola logo cedo. E percebeu que sua mão, tão famosa pela habilidade nos instrumentos de percussão, servia também para o futebol. Ainda jovem, o cantor fez as vezes de goleiro. Mas largou mão disso. Entrelaçou seus dedos com a arte, entrou na história da música e fez do pandeiro sua maior vitória. Claro, sem esquecer de escalar em suas músicas os "craques da pelota".

"Flamengo até morrer…"

Rubro-Negro desde criancinha, Jackson sempre falou com orgulho que era flamenguista. E dispensou ao time de coração algumas homenagens ao longo de sua carreira. A última música do último álbum gravado do Rei do Ritmo, "Isso é que é Forró", lançado em 1981, cerca de um ano antes da sua morte, é um dos seus grandes sucessos: "Bola de Pé em Pé", que é uma de suas três homenagens ao clube mais popular do país.

Pouco antes da gravação do disco, Jackson do Pandeiro tinha duas músicas sobre o Flamengo. E decidiu que apenas uma delas iria para o álbum, justamente "Bola de Pé em Pé". Uma delas, no entanto, sobrou. E até hoje não foi gravada.

Herdeiro rítmico do rei, seu sobrinho Zé Gomes, percussionista da banda de outro paraibano, Zé Ramalho, ficou involuntariamente como herdeiro dessa canção inédita. É que ele memorizou a letra que o tio cantava, pouco tempo antes da decisão de colocar no disco apenas uma das homenagens ao seu time de coração. Ao jornalista e maior estudioso da vida e obra de Jackson do Pandeiro, Fernando Moura, Zé cantou a música e contou a história. Segundo Fernando Moura, não há, no entanto, registro do nome da letra e dos compositores.

– Eu estava na casa dele e ouvi mais de dez vezes as duas músicas. Ele pediu a opinião de qual ele deveria gravar. Eu achei que a música "De pé em pé" tinha mais a ver com a situação. Só que a outra ficou na minha memória – revelou Zé Gomes a Fernando Moura.

Os versos da música são os seguintes:

“No domingo tem, no domingo tem
Jogo no Maracanã
Eu já falei pro meu bem

Prepara o almoço mais cedo,
No domingo tem Fla-Flu
No último jogo que eu vi
Flamengo ganhou de 2 a 1

O Fluminense marcou
Um gol de primeira legal
E o Mengo empatou
Na raça e na moral

E o gol da vitória
Veio no minuto final
E a galera Rubro-Negra
Fez aquele carnaval

No domingo tem, no domingo tem
Jogo no Maracanã
Eu já falei para o meu bem”

O amor pelo Flamengo e pelo futebol, Jackson externava sempre através de som. Seja com sua música ou vendo os jogos pelo rádio. O artista não era muito afeito a ir nos estádios. Mas sempre acompanhava seu time de coração e seus ídolos, como o lendário camisa 10 do Fla, Zico.

No livro "Jackson do Pandeiro – O rei do ritmo", de Fernando Moura e Antônio Vicente, o parceiro de composições Sebastião Batista dá a dimensão da idolatria que o Rei do Ritmo tinha com Zico.

– Ele era Flamengo doente. Ih, como gostava do Flamengo. Zico era o ídolo dele. Nossa Senhora, só falava no Zico! "Ele joga hoje?", me perguntava. "Ah, então hoje a gente tem gol, não tem luta…" – disse Sebastião Batista, parceiro de Jackson em músicas como "Cabeça Feita" – um dos seus maiores sucessos -, "Rei Pelé" e "Bola de Pé em Pé", seu último canto de torcida.

Zico ainda iria participar, sem saber, de um dos momentos da vida de Jackson do Pandeiro. Após um show em Brasília, o músico passou mal no aeroporto da capital federal quando pretendia voltar para a Paraíba.

Jackson foi então levado para um hospital da cidade e deu entrada na UTI, no dia 4 de julho de 1982. Após dias de internação, alguns deles em coma, Jackson do Pandeiro acordou desorientado.

– A primeira pergunta dele quando acordou foi: "Zico fez gol?". Ele ficava perguntando se o Brasil ganhou o jogo. Então Neuza (sua esposa à época) mentiu – revela Fernando Moura.

Um dia após a sua internação, o Brasil de Zico, Falcão, Sócrates e outros artistas da bola entrava em campo para sair da Copa do Mundo, mas adentrar na história. O time de Telê Santana, como um bom elenco, entrou em cena naquela Copa de 1982 para diversos espetáculos. Para a tristeza dos brasileiros, o último foi uma tragédia. A Tragédia do Sarriá.

No Estádio Sarriá, na Itália, o time da casa conseguiu revelar um grande protagonista – ou seria antagonista? Paolo Rossi fez três gols e se tornou um dos maiores vilões do futebol brasileiro. Itália 3, Brasil 2. Azar da Copa.

Quando soube da verdade, ainda na UTI, Jackson ficou triste. Mas parecia bem, diante da situação em que se encontrava. Tanto que Neuza, após vê-lo consciente e até perguntando de futebol, voltou ao hotel mais tranquila. Horas depois, do dia 10 de julho, a esposa foi chamada novamente para o hospital e encontrou o Rei do Ritmo já morto, em decorrência de embolia pulmonar.

Torcedor e goleiro

Paraibano de Alagoa Grande, no Agreste do estado, Jackson do Pandeiro nasceu em 31 de agosto de 1919. Neste sábado, comemora-se o centenário de nascimento de um dos maiores artistas do país.

Logo cedo saiu da sua cidade para Campina Grande, maior município daquela região. Foi lá onde iniciou realmente a sua carreira artística. E onde se apaixonou mais pelo futebol. Virou torcedor do Treze, um dos maiores clubes da Paraíba.

Na juventude, virou até goleiro, de acordo com o jornalista Fernando Moura. Por um bom tempo, fez parte dos quadros do Central de Campina Grande, time do bairro do Zé Pinheiro, um dos mais tradicionais da cidade.

Mas engana-se quem pensa que Jackson dividiu o coração apenas em dois lados: o alvinegro, do Treze, e o Rubro-Negro, do Flamengo. Na música "O Bom Torcedor", parceria com Braz Marques, o músico canta que também tinha carinho especial por Santa Cruz – Jackson também morou em Recife -, Atlético-MG e Corinthians.

De Rei para Rei

Um das músicas mais conhecidas sobre o eterno camisa 10 do Santos e da Seleção Brasileira é de Jackson do Pandeiro, em parceria com Sebastião Batista. O Rei do Ritmo tinha em comum com o Rei do Futebol, além do título nobre maior, os amores pelo futebol e pela música. Em uma homenagem diplomática, de um rei para o outro, Jackson rendeu em versos e ritmo uma deferência a Pelé.

E foram muitas as músicas sobre futebol. Além de "Rei Pelé" e "Bola de Pé em Pé", Jackson do Pandeiro ficou eternizado quando deu uma de torcedor, defendendo seu time, em "1 x 1", composição de Edgar Ferreira.

Em a “A Taça Já era Dela”, de Rubens Campos e Waldemar Silva, Jackson do Pandeiro encarna um cronista esportivo e canta um curto, porém preciso, samba denúncia. A canção brinca com o fato de a Copa de 1966, na Inglaterra, ter sido feita para os ingleses ganharam. Aquele segue sendo o único título mundial do time da Terra da Rainha. Na ocasião, a equipe inglesa se sagrou campeã, após ter um gol seu validado, em que a bola não entrou, na prorrogação da final do torneio contra a Alemanha.

Em “Frevo do Bi”, de Braz Marques e Diógenes Bezerra, e “Scratch de Ouro”, de Maruim e Oscar Moss, Jackson cantou homenagens à Seleção Brasileira. Na primeira, lançada em 1962, ano de Copa do Mundo, o Rei do Ritmo exalta o quadro brasileiro, quase prevendo o bicampeonato mundial, que acabou acontecendo naquele ano, no torneio disputado no Chile. Na segunda canção, de 1963, Jackson canta a glória, com o enfoque maior a Garrincha, grande estrela do time que bordou a segunda estrela na camisa canarinha.

Recentemente, a descoberta de uma música “perdida” trouxe à tona mais uma história interessante sobre uma música cantada por Jackson do Pandeiro sobre futebol. É que em 1970, o Rei do Ritmo lançou “Frevo do Tri” para homenagear o terceiro título mundial do Brasil. Era essa a versão oficial até este ano.

É que o colecionador e pesquisador paraibano Jocelino Tomaz de Lima descobriu um compacto de 1966 com as músicas “Frevo do Tri” e “Garota de Botafogo”, esta última música jamais catalogada pelos especialistas em Jackson do Pandeiro.

E explicação está no futebol. Até agora se achava que a música “Frevo do Tri” havia sido feita para a homenagear a campanha do time histórico de 1970, que conseguiu o tricampeonato mundial e a taça Jules Rimet em definitivo, na Copa do Mundo do México. Mas não foi bem assim.

A música havia sido feita para o esperado tricampeonato na Copa de 1966, na Inglaterra, quatro anos antes de Pelé e companhia conquistarem o tri. Como o título não veio no Velho Continente, o disco fracassou no Brasil. E “Garota de Botafogo” naufragou com a Seleção Brasileira e com Jackson do Pandeiro naquele ano. A Jackson, sobrou fazer um samba indignado para diminuir a conquista em casa da Inglaterra.

Outras menções de futebol aparecem em “Samba do Ziriguidum”, de Jadir de Castro e Luiz Bittencourt e “Olé do Flamengo”, parceria sua com Braz Marques. O futebol foi um dos temas preferidos na vida profissional e pessoal de Jackson do Pandeiro. Que, como um grande rei, entrou no campo do futebol-arte para nunca mais sair, tocando a todos até hoje.